Marcela estava
deitada na rede de sua varanda e se balançando com uma perna, enquanto pensava
no quanto tinha vivido desde que se esbarrou com Lucas numa barraquinha de
cachorro quente. Estavam juntos há um pouco mais de um ano, mas, que importa o
tempo, quando se acha com quem dividi-lo? Nunca achou que fosse conseguir se
apaixonar assim. Sempre quis, é bem verdade, mas sua vida amorosa sempre foi um
desastre atrás do outro. Alguns frios na barriga antes da festinha do colégio,
uns olhares mais fortes trocados, o suor frio pelo corpo e pelas mãos, o
coração pulando, já havia sentido tudo isso. Mas, quando viu Lucas, não
percebeu nenhum desses sinais em si. Ficou na expectativa depois dos primeiros
encontros, porém, foi tudo muito natural. Ela não precisava planejar cada parte
do encontro, as coisas rolavam, que nem esse balançar da rede... Olhou para o
céu e se sentiu grata. Se houver alguém ai, obrigada pelo presente, pensou para
si mesma. Lucas irradiava paz em sua vida, um verdadeiro divisor de águas.
Quando se está apaixonado, é normal colocar o outro no pedestal, mas não é
isso. Ele realmente é uma pessoa maravilhosa, pensou, e quando ele me abraça o
mundo não existe. Esse é o clichê mais verdadeiro que há. Continuou se
balançando e se refrescando com a brisa. Caiu no sono e pode dormir tranquila
por uns minutos. Era como se uma parte dele estivesse ali, balançando a rede
para ela. Chegou a sonhar com algo alegre que não soube explicar, mas sonhou.
Abriu os olhos e encarou novamente o céu mais escuro, agora. Continuou deitada e se esquentando com os
pensamentos de antes.
Tenso. Intenso. Extenso.
domingo, 9 de setembro de 2012
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
A camisa
Lucas trabalhava que nem um escravo. Todo dia acordava cedo, engolia
o café após um banho de 3 minutos e corria para o seu emprego. Chegava à sua
mesa 7h em ponto e se via encurralado pela divisória de 1,60 à sua frente. Ia à
copa e pegava uma xícara de café, retornava ao seu cubículo e digitava sem
parar até terminar boa parte dos relatórios pendentes. A pilha de documentos
antigos para serem digitalizados era infindável. Quando ele achava que
diminuía, Jéssica repunha a pilha. Lucas não tinha tempo sequer para perceber
os olhares de Jéssica ao ir à sua mesa. Desde o primeiro dia, ela se sentia
atraída por ele. Começou a se vestir melhor, maquiava-se e até pintou o cabelo
e nada dele perceber. Apenas sorrisos cotidianos eram trocados.
Um dia, Lucas chegou ao trabalho e encontrou Jéssica.
Cumprimentou-a, mas estava surpreso com a companhia. Os outros funcionários só
chegavam perto das 8h. Foi à copa e pegou sua xícara. Enquanto colocava o café,
percebeu que ela estava atrás dele. Por um momento, pensou que fosse só
imaginação, mas, quando se virou, ela o encurralou com os dois braços. Ele deu
um pulo e derrubou café na camisa branca. Ela também pulou para trás e pediu
desculpas. A cabeça dele girou um pouco, numa espécie de vertigem e confusão,
começou a esboçar uma reação quando ela já estava tentando desabotoar a camisa.
Ele a afastou delicadamente, disse que não havia problemas e voltou para a sua
mesinha para buscar sua bolsa. Saiu do trabalho e voltou para casa. Logo hoje,
no dia da reunião! Ainda bem que é só às 10h. Trocou-se rapidamente e jogou sua
camisa manchada numa sacola. Passou numa lavanderia perto de sua casa e foi
quando a viu.
Foi cena de filme. Ele pegou a nota fiscal e vislumbrou-a através da
vitrine. Ela estava na carrocinha de cachorro quente. Ele chegou perto dela,
não soube bem por que, mas precisava fazer isso. Não é muito cedo para um
“dogão”? Ela se virou um pouco irritada e respondeu: como é? Pela primeira vez
há tempos, Lucas riu de verdade. Marcela ficou sem entender e riu também, um
pouco sem graça. Engataram uma conversa constrangida e ele descobriu que ela
trabalhava na empresa ao lado da sua. Foram andando juntos.
Trocaram algumas informações sem muito interesse, mas para quem tem
interesse, tudo importa. Marcela era uma dessas mulheres que falam pelos
cotovelos. Não de um modo irritante, mas de uma fluidez com as letras que
encantou Lucas. Ele resolveu pegar o celular dela para se encontrarem depois.
Separaram-se e trocaram sorrisos frouxos.
Lucas chegou à sua mesinha às 9h. Ligou o computador e viu uma
mensagem de Jéssica, pedindo desculpas pelo constrangimento. Ele respondeu
educadamente, já sem lembrar direito da irritação de outrora. Organizou alguns
artigos e foi à reunião. De repente, ao se sentar à mesa da sala maior, avistou
a cidade pela janela. Respirou profundo e sentiu-se melhor.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
A queda
Marcela não
aguentava mais se olhar no espelho. As luzes simplesmente não se refletiam
direito. O espelho não projetava o que ela queria ver. Todos os espelhos
estavam cobertos por lençóis. Tirá-los da parede seria mais eficaz, mas, por
algum motivo, isso não cabia no momento. Maquiava-se por instinto. Se
estivéssemos em fevereiro, não seria assim, mas esse maio a fez menos vaidosa.
Saiu de casa sem ao menos abrir um pouco as janelas para o sol entrar. Tinha
que ir ao mercado, não sabia exatamente por que, mas a dispensa estava vazia,
não havia telefones em casa, então, resolveu ir atrás de comida pessoalmente.
Marcela não estava acostumada a ir atrás das coisas que queria, mas há uma
primeira vez para tudo. Mesmo se negligenciando, era ainda de uma beleza daquelas
calmas, que só a juventude pode conceber. De repente, passa alguém com um rosto
familiar. Coração pula. Não é ele, Marcela, diz para si mesma. Não é mais uma
possibilidade, ele morreu. E isso não é uma metáfora. O Lucas se foi e você
está aqui. Alguém esbarrou nela e a fez despertar. As pessoas estão sempre
correndo nessa cidade. Entrou no
mercado, pegou algumas coisas na prateleira de frios, abasteceu o carrinho de
bebidas, achou o lugar dos enlatados e foi para o caixa. Viu os cigarros no
anúncio e pensou, por que não? Foi para a casa e abriu um pouco a janela da
cozinha. Não guardou os alimentos, só pensava no cigarro. Nunca havia fumado,
mas parecia certo nesse momento de dor. Acendeu um e tragou dele. Tossiu até
lacrimejar e apagou o cigarro. Quem sabe outro dia eu tento e foi para a sala.
Ligou a TV, mas só funcionava um canal chato de vendas. Desligou a TV e ficou
desnorteada no sofá. Lembrou-se do seu noivado, das festas, de como eram
felizes. A felicidade parecia real. Era real. Não sentiu quando as lágrimas
tocaram o pescoço. Ainda guardava o pedaço de bolo de casamento no freezer.
Tinham planejado comer a fatia no primeiro aniversário, ao invés disso, estava
ela sem saber o que fazer e com um maço de cigarros à sua espera. Era uma
tentativa desesperada, talvez. Ou talvez não. Lucas odiava que fumassem perto
dele. Seria esse um jeito de expulsá-lo de si mesma? Será que odiando a quem se
amou tornaria o esquecimento mais fácil? Marcela se afogava nesses pensamentos
sem ordem nem nexo. Olhou o relógio; 14h56. Mais uma tarde chegando ao fim e
nada mais. Foi ao banheiro, sentou-se no vaso, quando resolveu abrir o armário
debaixo da pia. Só abriam para retirar coisas da limpeza. De relance, viu algo
inusitado lá dentro. Seria uma calcinha? Puxou e viu que era uma roxa de renda.
Por um instante não reconheceu a peça e ficou paralisada. Lucas nunca faria
isso. Ou faria? Foi até a cozinha e pegou novamente o maço de cigarros. Fumou
um a um. Depois do 5° já não tossia mais. A calcinha estava jogada em cima da
mesa da cozinha e ficou olhando com ódio. Conseguia odiar Lucas agora e nem
precisou criar um motivo. Era nova, não tinha cheiro de usada. Também não fazia
o seu estilo. Ficou maquinando as possibilidades e só conseguia vislumbrar uma:
viúva e corna. Sempre a última a saber. Foi até o armário do banheiro e pegou o
frasco de ansiolíticos. Tomou todos, foi até a janela do seu apartamento,
morava no 7° andar. Sentiu uma forte vertigem e não conseguiu se segurar na
grade velha de sua varanda. O corpo de Marcela ficou estendido no chão por
quase duas horas até que alguém a achasse. No outro dia, a sua irmã foi
recolher as coisas na sua casa e percebeu o armário do banheiro aberto. Olhou
um pouco mais na tentativa de achar algo estranho e avistou um pedaço de papel.
Era uma carta de Lucas para Marcela. Hilda leu o achado e percebeu que se
tratava de um rascunho. Lucas estava tentando escrever algo para o aniversário
deles. Pobre Marcela. De tanto tentar enganar-se, foi enganada pelo destino.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
Solidão Azul
Mais um dia em
casa sem nada para fazer. Que maravilha ela pensou ao abrir a cortina do seu
quarto. O tempo não era um dos melhores, mas estava melhor do que o de ontem. A
vida corria assim sem pressa de passar. E não é que isso era bom? As pessoas
andavam com pressa nas ruas, os carros corriam e ninguém percebia o canto dos
pássaros, nem o agito dos pombos. É confortante saber que é possível respirar
enquanto os outros ofegam com a rotina. É quase um desabafo, uma renovação, uma
luz. O café estava pronto e ela se sentou à mesa na varandinha pequena do seu
apartamento. A poesia do céu é algo revelador. Quanto tempo gastamos olhando
para o chão? De certo, mais tempo do que deveríamos porque, só de olhar para o
alto, encontramos paz. As nuvens mudam o tempo todo, as estrelas e os astros
somem e se mostram alternadamente, mas todos conseguem achar um lugar no
infinito azul do céu. Se é democrático, não sei, mas, no mínimo, pacífico.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Por um segundo
De repente, ela acordou mudada. Não, mudada não. Talvez o vento a faça sentir assim. O dia foi passando e tudo estava do mesmo jeito, mas de alguma forma, as coisas aconteciam com mais leveza. Resolveu sair. Para onde? Não sabia, simplesmente foi andando. Chegou a um bar, sentou-se, olhou ao seu redor, pediu um drink.Foi quando encontrou um olhar e entendeu porque a felicidade pode existir.
Voltar para casa não pareceu mais uma má ideia.
Voltar para casa não pareceu mais uma má ideia.
terça-feira, 15 de maio de 2012
Gracejo
A inércia de um amor destrutivo
de uma vida sem cores
de uma consciência latente...
A representação da vida na sua frente
e a sua incapacidade de extrair
as cores dos acontecimentos.
Caleidoscópio sem entrada para a luz.
Amarelo, azul, violeta, verde-jade?
Cinza.
Cinza.
Cinza.
Que cor mais sem graça.
Que graça mais perdida.
Desgraçada no sentido mais pleno da palavra.
De graça? Não. Só sem graça.
*inspirado no filme Estamos juntos
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Fixo no fixing
[When you love someone but it goes to waste. Could it be worse?]
A chuva caía e o vento era forte. Frio em janeiro é uma novidade.
Ela encarava a janela e sentia a música aumentando, chegando ao seu clímax.
When you get what you want but not what you need.
When you feel so tired that you can't sleep.
Dormir.
Eu durmo mais do que tudo. Acordar é um intervalo de minutos.
Mas, o que foi mesmo que eu sonhei?
And high up above or down below.
When you're too in love to let it go...
Deixar ir. Eu deixei as coisas irem...
Mais chuva. E nenhuma sensação de alma lavada.
Talvez amanhã...
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Começo, meio e fim
A cronologia faz sentido até o momento em que eles se encontram. Seus olhos firmemente fixados uns nos outros, cada um enxergando o âmago do outro e se reconhecendo no brilho das cores que se refletem na íris. Arco-íris. Cores que apaixonam, que convidam ao silêncio, à brandura, à admiração e à constatação de que momentos assim são incontáveis quando se está junto um do outro.
Contar. Contar os batimentos cardíacos, os suspiros, as risadas. Contar para quê se nada é de se pensar quando estão juntos, mas de se sentir.
Sentir. Flutuar em contato com a cama, com o chão, com a parede. O atrito existe, mas é ignorado porque se olham e se entregam a mais uma dose de esquecimento das coisas mesquinhas da vida.
Mas a sensação de bem estar era pertubadora demais. O medo. A intensidade assustou o que se achava ferido por demais e a distância apareceu na história.
Distância.
Distante.
D-i-s-t-a-n-t-e-s.
Os dias voltaram a obedecer um calendário e as horas a serem contabilizadas.
Contar voltou a ser uma constante.
domingo, 20 de novembro de 2011
Dia Azul
Olha para o céu
na tentativa de ser iluminada
com algo de fora, algo grandioso.
Mudar de planos, sublimar a realidade.
Encara o céu
e mergulha em pensamentos desconexos.
Volta à realidade e se depara com um azul sem limites.
Hoje não é dia para nuvens.
sábado, 24 de setembro de 2011
Rota de colisão
Andar na rua, parar um cara e beijar na boca dele é absurdo.
Mas foi isso que ela fez.
De repente, dois caminhos aleatórios, duas rotas inimagináveis se chocaram por instantes.
A explosão foi grande.
domingo, 3 de julho de 2011
O começo de um fim
Bem vindos ao baile dos incansáveis! Quem entra aqui está condenado a um único destino: dançar até os pés racharem. E no meio da pista há todo tipo de gente. Tem mulher de coração partido, homem perdido, mulher solteira e raparigueira. Tcha!Tcha!Tcha! Olha a Saaaalllsa! Ai! Ai! Ai! No swing frenético do salão, as pessoas dançam de todo jeito: em casais, sozinhos, em grupos, com garrafas, não importa! O importante nesse baile é dançar e se deixar envolver. Sintam as batidas da Cumbia, elas entram no corpo por todos os lados. Ou será que elas saem dos dançarinos, pulsam em suas veias e se propagam no ar, contagiando quem estiver por
perto?
De repente, nesse cenário todo, acontece.
Um bailarino dança fervendo e capta o olhar de uma mulher que se diverte remexendo-se ao som das batidas. Ele se aproxima e puxa a sua mão num convite. Ela aceita e os dois bailam quase deslizando pelo salão e chamam a atenção de todos, apesar de só terem olhos para si mesmos e ouvidos para a música. Já estão no centro do salão quando ele a gira e a joga para cima, arrancando suspiros das mocinhas, gritos das gaiatos e inveja dos marmanjos. A cada giro que o casal dava todos começavam a perceber que o destino deles foi escrito diferentemente dos demais. Eles, mais do que todos, estavam fadados a dançar, mas, também, estavam destinados a reinar no baile. A cada giro, os seus corpos se atraiam mais e mais e as pernas deles só obedeciam à música, enquanto seus corações batiam no tempo da percussão.
Era quase um romance, mas não era.
A carne falava em paixão e o espírito em entregar-se. Entregavam-se à dança na esperança de prolongarem essa conexão estabelecida. Mas, o que eles não sabiam é que esse elo não poderia ser desfeito desligando os instrumentos. Na verdade, o que ninguém conseguia enxergar nesse momento é que eles tinham as suas almas entrelaçadas e que essa dança era o prenúncio de dias ensolarados e festivos. É questão de tempo para eles perceberem.
Todavia, atrás de toda calmaria, vem uma tempestade. No caso deles, vinha um redemoinho.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Francisca Fantástica
Francisca era uma menina pouco risonha, vivia dentro de casa e só saía para o essencial. Todos haviam se acostumado ao recolhimento da menina, mas ainda comentavam, quando ela passava, o quanto era triste ver uma menina tão nova já tão indiferente à vida.
Num belo dia, um desses dias que a quentura do sol é mais amena e a brisa rola solta refrescando o corpo num único sopro, Francisca ficou deitada na sua cama inerte. Na verdade, não se sabe bem se ela estava acordada, pois, ela mantinha os olhos abertos, mas não enxergava um palmo à sua frente com nitidez.
Francisca enxergava o vão; mantinha os olhos no horizonte como quem sonha acordado...Pronto! Já sei, ela estava acordada, mas não estava, enfim. Foi nesse instante de incerteza que uma agonia esquisita começou a se dar na personagem. Agora, escute, foi uma sensação estranha demais da conta! Foi tão intensa que os olhos de Francisca perderam a capacidade de enxergar as coisas ambientes, mas essa cegueira no presente já não era certa para o futuro, pois, a partir desse dia, ela começou a prever tudo quanto era fato que aconteceria na sua cidade.
Não demorou muito até saberem do ocorrido. As pessoas nem esperaram amanhecer e já faziam fila na porta da casa de Francisca, como se ali tivesse surgido uma santidade nova. Aura santa a casa não tinha, mas, de fato, conservava uma atmosfera mística, sabe? Pois é. E foi então que nos dias e noites seguintes, Francisca começou a fazer previsões para todos, menos para ela. Pois eu também achei muito estranho quando soube, mas, o fato é que a nossa personagem não conseguia ver o seu futuro. Veja que situação triste, meu caro, ela não enxergava nem o seu presente, nem o seu futuro. E a sua cabeça ficava tão consternada com as preminições que mal dava tempo da coitada lembrar do seu passado...
Francisca, então, seguiu nessa sina desgraçada de ver tudo para todos, mas de possuir cegueira para a sua própria vida. Depois de alguns anos, quando ela havia se conformado com a sua sina, uma outra sensação estranha se apossa de Francisca. Dessa vez, veio com mais intensidade do que a outra e tomou um longo tempo. Dizem que ela ficou dias trancada na sua casa, que já não tinha mais gente perto, mas, sim, de longe(pois, veja bem, ficaram todos com medo, mas curiosos), então ouviu-se um grito. Mas foi um desses gritos que ficam gravados na alma da pessoa e, toda vez que alguém da cidade se lembra desse dia, escuta o grito na sua mente e tapa os ouvidos como se estivesse ocorrendo agora. Impressionante, né? Mas, mais fantástico ainda foi quando viram Francisca abrir suas asas e sobrevoar a cidade por uma semana inteira!
Pois é, VOAR! O senhor acredita? Eu só acreditei porque minha avó jurou de pé junto que era verdade e a minha vó não mente, que mentir é pecado e pense numa velha pra ter medo do inferno! Pois, continuando, Francisca, depois de voar por muito tempo, decidiu pousar de novo no solo da cidade cujo futuro lhe possuíra há semanas atrás. A primeira coisa que notaram foi que os olhos dela estavam completamente brancos! Era assustador, mas, com esses olhos brancos, Francisca havia voltado a enxergar as coisas naturalmente. Ela disse que a emoção de voltar a ver a possuiu de tal forma que suas costas começaram a latejar de dor e, no momento de liberdade plena, as suas asas surgiram e foi aí que todo mundo ouviu o grito estrondoso já citado, pois as asas rasgando a pele de Francisca causaram-lhe comoção, espanto e dor, tudo ao mesmo tempo.
Desse dia em diante, Francisca escolheu voar o mundo a fora e dizem que, de vez em quando, ela volta pra sua cidade para se lembrar do tempo em que era escrava de si mesma a fim de nunca mais se permitir fraquejar dessa forma.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Balada de Gisberta
Apagaram-se as luzes, é o futuro que parte. É o futuro que parte, fulana, quando nos encontramos perdidas nas resoluções diárias da vida. É o futuro que parte quando o coração aperta ao vislumbrar o presente não pré-meditado. É o futuro que parte quando as certezas são substituídas por dúvidas. Ah, fulana! Se tu soubesses das minhas dúvidas, dos meus medos, das minhas angústias, dirias: deixa disso, cicrana, de onde surgiram tantas indagações? Ou talvez, fulana, entrarias no olho do furacão e te deixarias ser levada pelo vendaval da vida que está sendo redesenhada na minha cabeça. Segura-te, Fulana! Aqui vem uma tempestade sem fim! Aqui vêm nuvens carregadas de questões mal resolvidas, de lágrimas reprimidas, de dores inconsoláveis. Ah, fulana! Por quê? Ora, porquê, tu dirias, a vida é assim, um dia se dança em palácios, noutro nas ruas.
...
E que intensidade de preto se instalou na minha vida, fulana. Cadê o amarelo vivo que pulsava em minha alma e derramava luz em todos os meus sonhos? Pois, é, fulana, a distância até o fundo é tão pequena. Foi o futuro que partiu a cem por hora, deixando apenas as frustrações de não ter conseguido ser o que se queria. Com um olhar vazio, contagiado pela angústia, tu me dizes, fulana: E o amor? Eu te digo: Ah, o amor, o amor é tão longe.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Finito
A gente tentou de tudo. Ele abriu os olhos e deu de cara com a luz que invadia a sua janela. No comeco, foi difícil, acordava muito cedo sempre porque a janela era enorme e iluminava demasiadamente o seu quarto. Pensou em comprar um black-out, mas adiou tanto que desistiu. Mentira, agora não fazia diferenca mesmo. Ela não dormia mais ali, então a luz era um problema dele. Exclusivamente meu! Bufou aos quatro ventos durante dias esse pensamento. Haviam tentado de tudo de fato, mas às vezes não há o que tentar. Havia apenas a resignação e essa ainda estava cravada na garganta deles, não queria ser engolida de forma alguma. Ela queria ser vomitada por ambos e eles queriam tentar de novo algo que já havia findado. Tudo é finito. Finito. F-I-N-I-T-O. Essa palavra simplesmente nao se enquadra a nós, somos eternos, sempre achei que fôssemos eternos. Como pode duas almas, antes felizes, serem agora dois vultos amargurados...Como pode ser que eu tenha ficado assim? Ele levantou da cama e foi lavar o seu rosto. Já é tempo de seguir em frente. Ja é tempo de eu acordar e não pensar nisso. Tomou um banho refrescante, sentiu-se melhor. Resolveu, então, sair de casa. Andou pra qualquer lugar, pensou em ir no lago pra fumar um cigarro e deitar-se na grama. O céu estava um azul infernal. Inferno. É lá que eu tenho morado. Tragou do seu cigarro e ficou olhando o nada. Pensamento já cansado de pensar nisso, mas, não era algo de que se esqueceria com algumas noites mal dormidas e uns tragos de cigarro regados à whisky. Não se esquece nunca de um passado feliz. Não se esquece nunca dos próprios erros, principalmente, se eles acabaram com toda a
felicidade inesquecível. Fechou os olhos, inspirou o ar limpo e divagou na esperança de mudar essa situação insistente. Concentrou-se na sua respiração e acabou caindo no sono.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
O Sol
O sol nasce para todos. Ela o fitava. A luz parecia lhe anunciar algo... não sabia ao certo o que, mas sabia que seria um conforto. As coisas pareciam não importar mais diante do astro e, pela primeira vez durante esses anos, conseguiu parar de pensar e se deixar banhar pelos raios quentes e acolhedores. As dores, as mágoas, os erros, nada mais importava porque ela estava tendo uma chance de sentir algo diferente. Era quase uma alegria.
Ele dava as costas ao sol.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
O Peso
A fumaça do cigarro nunca pesou tanto nos seus pulmões. Era a culpa entrando a cada tragada e permanecendo no seu organismo mesmo quando ele jogava pra fora toda a poeira em suspensão. Inspira, expira, inspira, expira...Por mais que expirasse com força, a culpa continuava lá, alojada na caixa dos peitos, dançando dentro dele com saltos agulha, dançava um tango, obviamente, e dançava com toda a tristeza e precisão que o tango exige. Como toda mulher, a culpa era traiçoeira, vingativa, e insistia em deixar uma marca dolorida dentro dele. Inspira, expira, inspira, expira...Levantou-se para abrir de vez as cortinas que permitiam a entrada da luz por frestas. Escancarou-nas e agora a luz invadia por inteiro o seu apartamento. O excesso de luminosidade e ar fresco causaram-lhe certa vertigem. Apoiou-se no parapeito, baixou a cabeça, respirou, respirou, respirou.
O seu peito ainda estava carregado da fumaça suja do cigarro, mesmo com todo esse ar fresco circulando pela casa agora. Sentou no sofá, fechou os olhos e tentou sentir a luz morna da manhã esquentando o seu corpo. Isso sempre lhe trouxera conforto, mas hoje, rá, hoje, não. Hoje a culpa era a dona da vez e dançava, dançava, dilacerava o peito dele. Nunca uma tragada houvera pesado tanto. Só restava a ele respirar cada vez mais fundo. Fundo, fundo, profundo...
O Fardo
Dói. As idas e vindas sempre doem. Me fazem arder e dilaceram as minhas visceras. Ele não tinha a menor piedade dela. Fazia o que bem queria, lambuzava-se a noite inteira, embriagava-se no seu amor para, de repente, ir embora depois sem deixar vestígios. A ausência de vestígios enlouqueciam-na porque na sua cabeça era tudo muito vivo, mas a realidade era vazia dele. É humilhante pensar tanto em alguém que não existe, que não se deixa existir. A sua pele está marcada por toda parte, esse sim é o maior vestígio, mas, quem enxerga? Ninguém. Ela anda pelas ruas de sua cidade com um ar de procura com o qual todos já se acostumaram, não percebem mais a sua dor. Ela mesma quase se acostumou com a carne se rasgando quando a brisa traz passageira um perfume, uma sugestão do perfume, uma lembrança louca dele. Mas, o cheiro passa no momento em que ela relembra o imemorável. É de pirraça que o vento faz isso, brinca com ela como o seu amado e isso reaviva o seu pensamento ainda mais. Dói. Dói. Dói. A dor é a única certeza da sua existência. Uma coisa assim, tão forte, tão dilacerante não podia vir só da sua cabeça. Ninguém teria essa tendência masoquista tão acentuada...ou teria?...Depois de meses, anos, ela não sabe ao certo, ele volta como se tivesse partido ontem. Um beijo basta para acorrentá-la. O vento agora bate nos seus cabelos, bagunça um pouco e para. Um presságio! Dessa vez ele fica, dessa vez ele me ama, dessa vez ele me quer. Ele me quer! Ela se deixa abraçar e dança conforme o ritmo dele. Com ele uma coisa sempre leva a outra, um beijo sempre leva a um abraço e um abraço sempre leva ao desejo. Eles ardem. Ele de saudade, ela de raiva. Raiva. Ódio!Pela primeira vez ela o odeia, e o consome como tal. Arranha todos os pedaços de pele que pode, tenta marcá-lo como o seu toque a marca. Tenta odiá-lo com a mesma intensidade que ele se faz presente mesmo na ausência. Tenta rasgá-lo como ele a destrói. Ele a segura e agora a única forma de evadir o seu ódio é no grito que se faz ouvir na madrugada. Um gozo, uma morte, qualquer que seja possuem a mesma profundidade; carregam a mesma mágoa, desnorteiam da mesma maneira.
A Descoberta
Há um abismo entre nós. Quanto mais próximos, mais a distância grita. O amor...até que ponto isso é? Ela ruminara tais pensamentos a manhã inteira e adentrou as horas seguintes nesse ciclo mental. Interagia, mas, assim que se calava, voltava a se consumir nessa possibilidade estúpida de voltar para ele. Humilhar-se, chorar, descabelar-se, o que fosse preciso, mas havia o abismo... Começara a escrever para tentar expulsar essas ideias de sua cabeça, mas, quanto mais escrevia, menos sentido fazia e mais dolorido ficava. Com o dia terminando, a rua pareceu-lhe convidativa. Colocou um tênis e correu. A estrada é fácil, branda, você só precisa caminhar, mover-se e ela o acolhe como um velho conhecido. Vagou por muito tempo dentro de si, mas, quem a visse correndo, conseguia sentir a sua determinação de chegar para onde quer que ela estivesse indo. Essa certeza exalava dela e provinha de sua vontade de se esquecer, de exorcizar a sua mente. Parou ofegante apoiando-se nos joelhos com as mãos. Mais calma, percorreu o caminho da volta a passos largos; era inútil fugir assim. Chegou em casa, tomou banho e caiu na cama. Quando abriu os olhos pela manhã, já sabia o que deveria fazer. Aprendera a não fugir.
O Engano
Uma luz fina atravessa as cortinas pesadas e batem na cama delineando o rosto bonito. Tão frágil, tão branco, tão linda! Parece mais um anjo que magnetiza todo o ambiente ao seu redor e o envolve num campo gravitacional. Ele estava dentro, observando de longe. Ele se aproxima da cama e consegue ouvir a respiração fraca dela; a luz denuncia um pano embebido de qualquer coisa entorpecente nas mãos dele; até que ponto eu cheguei por ela...e fica cada vez mais perto, mas, de repente, ele trai a si mesmo porque ela acorda e finge dormência. Ele hesita um pouco, recua dez centímetros. Os vultos do passado ecoam na sua cabeça, até que ponto eu cheguei, mas, num flash, sua cabeça escurece e seu corpo cai pesado no chão. O negro permanece em seus pensamentos por muito tempo e quando acorda, surpresa(!), está num beco pouco iluminado e úmido. Confuso, tenta se levantar, a cabeça explode de dor e a lembrança da pancada lhe vem. Encontra um bilhete no seu bolso que tem um a zero para mim escrito com a letra do seu anjo. No seu momento de recuo, ela o desmaiou estourando um copo de vidro na sua cabeça. Frágil, rá! Levantando com um meio sorriso na boca de deleite. Ela fora sub-estimada. E num transe de prazer ele percorre as ruas, perto do amanhecer, rindo consigo mesmo.
Desencontro
As luzes dissolviam a escuridão noturna. A música envolvia as pessoas que se encontravam nas ruas e nos bares do Recife Antigo. Um bêbado grita palavras ao vento e senta no meio fio, alguns o olham, outros riem, diversos se confundem à medida que o álcool corre o sangue. Um homem de barba levanta trôpego e sai do bar, o garçom desiste de cobrar, amanhã ele volta...Uma moça suspira a perda de um amor, outra gargalha enquanto ele a observa com lascívia. Essa está tão fácil...quando, de relance, vê um cabelo comprido emoldurando as curvas que ardiam na sua cabeça. Noites de alucinação para nunca mais; até agora. Escorregou no olhar dela; fitou-a. Eram duas almas feridas revivendo uma vida em segundos-um instante eterno. Ele desconversou, deu uma desculpa qualquer e saiu percorrendo as ruas vivas atrás dela. Tarde demais. Ao chegar no lugar em que julgou vê-la, só havia um rastro de perfume e a lembrança.
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